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ESCANGALHADO


“O orelhão tá escangalhado”. “Tá o quê?” Eu tinha nove anos, acabado de mudar do Rio para Brasília. Uma colega da escola queria ligar para a mãe e nós fomos até o telefone do pátio. “Tá estragado”. “Mas você disse outra coisa”. “Escangalhado, estragado. Nunca tinha ouvido?” “Não. Que palavra esquisita”. Na hora eu achei estranho e fui para casa pensando naquilo. Não é que ela tinha razão? Era mesmo uma palavra esquisita…

Comecei então a perceber que muitas pessoas davam nomes diferentes às coisas. Como eu passava a maior parte do tempo no colégio, era lá que eu descobria um mundo todo novo. Uma vez no recreio-intervalo, uma colega levou de merenda-lanche uma tangerina. “Adoro tangerina!” “É mexerica”, ela me corrigiu. Outra, mais vivida – ou achava que era, porque já tinha morado em três estados – explicou “na verdade existe tangerina, mexerica e ponkan. São três frutas diferentes”. Enquanto discutíamos sobre como chamar a dita cuja ao invés de comê-la, um amigo gaúcho se aproximou “Oba! Adoro bergamota”. Na hora pensei “ferrou…”
Daí para frente deixei de tentar determinar uma nomenclatura certa para as coisas e aprender as diversidades entre os estados. E vou te contar: Brasília é o lugar ideal para isso. Aqui tem gente de todo lugar. Lembro que quando me mudei para cá em 1994 saiu na capa do Correio “Primeira avó brasiliense”. Isso mesmo: primeira pessoa que tinha nascido na cidade e tinha tido filho e neto. Nunca me esqueço disso! Achei engraçadíssima a notícia! Jamais veria uma matéria dessa estampada em um jornal do Rio ou São Paulo, por exemplo.
Outra história que com certeza contarei aos meus sobrinhos (não pretendo ter filhos!) é que fui a primeira moradora da minha rua. Lembro da minha bisavó dizendo para mim lá em Jacarepaguá “quando eu era criança, isso aqui era tudo mato”. Um dia, vou dizer isso sobre Brasília também… Bem provinciano, não?
Ok, fugi do foco. Essa enrolação toda é só para você, querido leitor, ter noção de como a cidade é nova. Uma cinquentona, engatinhando birrenta e catarrenta perto das adolescentes metrópoles do resto do Brasil. Por isso, grande parte da população não nasceu aqui. Então é muito natural conhecermos dois gaúchos, quatro cariocas, três paulistas, dois paraibanos… Conheço gente até de Rondônia (não quis ser clichê e falar do Acre). E assim vamos ouvindo e nos acostumando a todo tipo de palavreado. Mas confesso que meus favoritos são os nordestinos e os sulistas! Como são ricos os regionalismos deles! E não me “avexo” mesmo: quando escuto uma palavra nova, pergunto o que é. Sempre é bom aprender.
E com o tempo a gente vai introduzindo coisas novas a nossa linguagem. “Trocador” agora é “cobrador”, “ponto” virou “parada” e até meu “escangalhado” (quem diria?!) se transformou em “estragado”. Mas a “tangerina” e o “aipim” não! Esses são meus e ninguém tasca!

(*) Camila Rezende é jornalista e editora do site Em Pauta. Carioca radicada em Brasília, fez da capital sua casa.