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Redes antissociais


As redes sociais surgiram com a promessa de unirem as pessoas e aproximá-las. Mas será que de fato é isso que está acontecendo? Todos os dias quando andamos pelas ruas o que vemos é um batalhão de pessoas de cabeças baixas e dedos ativos em seus tablets e smartphones; ávidas por informações, mas alheias ao mundo que as cercam.

Na verdade, nem preciso ser tão genérica assim para falar desse assunto. Eu mesma sou uma consumista de rede social. Qualquer um que me conhece sabe que minha casa virtual é o Twitter. É lá que passo a maior parte do meu dia, me informo e faço amizades (e inimizades também, sejamos sinceros).

Confesso que em muitas situações já larguei amigos falando sozinhos para dar uma checada na minha timeline e saber qual era o assunto do momento, o que estava rolando de novo. E eles nem sempre ficaram muito satisfeitos de ficarem em segundo plano. Ok, eles nunca gostaram.

Até meu noivo eu conheci pelo Twitter! Juro! Mas aí ele me fez perceber uma coisa incrível que eu já tinha esquecido: o mundo que vale a pena é esse, onde vivemos todos os dias, onde as pessoas se tocam, sentem de verdade.

Mas aí já era tarde demais, porque quando olhei em volta, as redes sociais já eram populares e já tinham chegado a todo o mundo! Até meus pais e meu avô têm perfil no Facebook e baixaram o Whatsapp (que irritantemente eles teimam em chamar de “zapzap”) no celular. E foi aí, caro leitor, que eu percebi que a vaca tinha ido para o brejo…

Veja bem, não quero parecer melodramática, nem nada. Muito menos retrô, vintage ou agarrada “aos velhos e bons costumes”. Eu ainda tenho quatro perfis ativos no Twitter, uso o Facebook, o Whatsapp, o Google +, o Instagran, o Pinterest e mais uma incrível variedade de redes. Tudo o que eu quero é que você entenda a força da alienação da internet.

Eu moro com meus pais (não me julgue). O que separa nossos quartos é unicamente uma parede. Mas desde que eles criaram seus perfis virtuais, o mundo sabe o que estão sentindo antes de mim.”Normal”, dizem meus amigos. Não, desculpa. Eu não acho normal. Não acho normal uma desconhecida saber que meu pai está triste e eu não. Não acho normal um parente do Rio saber que minha mãe está de folga e eu não. Como alguém que mora do outro lado do país pode saber mais sobre a vida de quem mora comigo do que eu?

Recentemente a coisa tomou uma proporção exagerada e eu tive que me manifestar: meu pai marcou uma operação para aquela semana e eu só descobri por uma prima no grupo da família no Whatsapp. Eu reclamei, falei que era um absurdo, que eu deveria ter sido avisada. Em resposta ao meu “chilique sem sentido”, descobri uma semana depois, por uma amiga, que meu já tinha pai marcado a festa de aniversário dele, com local, hora e data, pelo Facebook. Detalhe: não estou nem entre os convidados do evento. Dessa parte eu ri.

Achei que eu era a louca e conversei com uns amigos. Então um me contou que descobriu pela internet que a avó tinha falecido… Depois do enterro. Uma colega casou e nunca convidou ninguém para o casamento, mas a lista dos pedidos de presente chegou por e-mail para todo o mundo. Ainda bem que depois pudemos ver as fotos da cerimônia, seria um desperdício saber que demos um presente a um casal que se separou.

Por falar em casamento, foi também por uma rede social que minha amiga descobriu que o irmão dela casou. De papel passado e tudo. Aliás, passada ficou ela, que cresceu com o irmão e nem ficou sabendo que ele estava namorando, quanto mais que iria casar…

Redes sociais podem até aproximar pessoas distantes, mas, sem dúvida, afastam quem está próximo de nós. Então, querido leitor, levante a cabeça e tire os olhos do seu smartphone enquanto é tempo. Existe um mundo inteiro à sua volta e ele é verdadeiro, com pessoas que realmente se importam com você, que sentem, cheiram, tocam, esquentam, abraçam, amam. Viva nele.

 

Por Camila Rezende