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Síntese do Paulistano

São Paulo, março de 2014 (Licença, Vanessa Bárbara da revista Folha de São Paulo, mas penso igual a você.)

São Paulo é muito mais que um homem xingando da janela do carro e estacionando na vaga de um deficiente por cinco minutos, para buscar o filho no judô. É mais do que o motorista levantando o vidro blindado, quando aparece um vendedor de balas, ou boatos histéricos repassados pela internet, de que bandidos jogam ácido no parabrisa e sequestram seus filhos e a sua bolsa, só porque você usa um óculos Prada.

São Paulo é muito mais do que o ódio por flanelinhas, viciados e ‘black blocks’. É muito mais do que bandido bom… É bandido morto, e, gostou?

Leva pra casa. É mais que linchamento, briga de torcida, morte de ciclistas. É mais do que ônibus incendiados, criminalidade e Datena gritando: “Onde estão os direitos humanos, agora? “ É mais do que violência, desigualdade e injustiça.

A cidade que abriga eventos pomposos como São Paulo Fashion Week, Boat Show e Salão do Automóvel é muito mais do que os 54 shoppings coalhados de seguranças e decorações natalinas que aparecem em outubro, também é mais que uma noiva pagando 10 mil num vestido e 500 reais num bolo de isopor, é mais do que um ‘Rei do Camarote’ pedindo para trazerem a bebida que pisca. É mais do que universitários bêbados que passeiam pela Paulista de limousine e encomendam suas monografias de conclusão de curso por quatro vezes de R$600; é mais do que faculdades ruins, alunos indiferentes e professores cansados. Sem contar com os livros de auto-ajuda que prometem enriquecimento rápido e sem rugas.

São Paulo é mais do que celebridades do fitness, socialites, maquiagem definitiva e novas tinturas de cabelo; é mais do que Higienópolis, Jardins e Berrini. É a cidade dos vendedores de pipoca, dos carteiros que cantam, dos velhinhos que esperam o supermercado abrir de manhã e saem correndo para entrar na fila do pão; dos barbeiros antigos que cumprimentam os passantes e abrigam desconhecidos quando a chuva aperta. Onde as vezes se divide um guarda-chuva com uma senhora comendo canjica num prato plástico. É a cidade que adota animais abandonados e conta piadas do aperto do trem.

São Paulo é muito mais do que ódio e intolerância; mais do que rotular os outros de fascistas, comunistas, fanáticos, veados ou carolas.

É uma cidade com crianças, vira latas, dançarinos, equilibristas e gente que não dá as costas quando vê algo injusto acontecer, ou, pelo menos é assim que deveria ser.

Por Beth Corrêa